Publicado em 27/07/2012 15h49
ARTIGO
No período medieval, nem sempre adequadamente chamado “IDADE DAS TREVAS” a religião foi a força motora que conduziu as sociedades. Toda sorte de abusos, crimes e roubalheiras foram praticados em nome de Deus e sob a inspiração de textos bíblicos manipulados por religiosos espertalhões. Milhares de pessoas que ousaram contestar ou mesmo simplesmente não agradavam aos “arautos de Deus” foram executadas barbaramente em nome da fé e da pureza da sociedade. O altar de Deus esteve sempre maculado pelo sangue dos inocentes. Mais de um milênio de abusos e de restrições ao livre pensar e ao agir de forma laica só começaram a ser combatidos por ocasião da Reforma Protestante, que pôs fim a séculos de fanatização religiosa e “emburrecimento” social em nome de Deus.
Uma das maiores conquistas de nossa sociedade foi a efetiva separação entre a Religião e o Estado. Mérito dos iluministas franceses que viveram no século XVIII e combateram o desmedido poder que a Igreja Católica, então dominante em boa parte da Europa Absolutista, exercia sobre as mentalidades, sobre a política, economia e cultura dos povos.
No Brasil a situação nunca foi totalmente solucionada, Religião e Estado sempre andaram de braços dados, mesmo após as diversas manifestações das muitas constituições do Estado brasileiro acerca de sua laicidade. É suficiente observarmos como a temática de fundo religioso se insere nos debates políticos e eleitorais. Ora, a fé é uma questão de foro íntimo e pessoal, jamais pode ser percebida como uma questão de estado e de políticas públicas, a não ser em um único momento: a necessidade de que O estado assegure a todos direitos iguais de exercício de sua religiosidade ou de sua falta de religiosidade. Neste sentido me chamou a atenção a notícia veiculada pelo UOL em 30 de junho de 2012. Sob o título: “Mulher paga mais de R$ 100 mil para mãe-de-santo impedir fim de seu casamento em SP”. Até aí nada de mais, as religiões sempre sobreviveram e se alimentaram das dores, fraquezas e desespero alheios e, sempre existiram pessoas crédulas o suficiente para entregar dinheiro e bens a milagreiros de plantão, seja de que religião for. No entanto, de imediato aflora na notícia a questão da intervenção policial, pois a fazendeira que entregou o dinheiro em troca dos serviços espirituais não obteve o resultado esperado. Fazendo valer a “lei e a ordem” a polícia reaveu os cheques pré-datados e iniciou procedimento investigativo contra a mãe de santo. Nada de mais, seria ótimo se os poderes públicos realmente começassem a coibir esse tipo de situação: exploração charlatã da dor e do desespero alheios. No entanto fica a pergunta: porque esse tipo de coisa não ocorre com esse verdadeiro festival de milagres de pastores que anunciam a ação de Deus com hora e local marcados e a preço determinado? Não se trata do mesmo expediente de exploração da boa fé, de como falou certa vez o aliado de Lula, Paulo Maluf: “vendem um produto que não precisam entregar: a fé.”
A mim pareceu, mais uma vez uma evidente questão de discriminação: em se tratando de uma mãe de santo a policia atua, recupera dinheiro entregue voluntariamente, etc. Mas e quanto às grandes manifestações religiosas de caráter cristão evangélico/pentecostalista: anunciam milagres com hora marcada, induzem fiéis à entrega de bens que em última instância representam elementos indispensáveis para a sobrevivência de indivíduos e suas famílias necessitadas? Não haveria aí também o mesmo principio e expediente utilizado pela tal mãe de santo de Presidente Prudente, só que sob uma roupagem bíblica?
A liberdade do exercício da fé é fundamental e constitucional, mas não quer dizer que possa ser ilimitada, em nome da própria sobrevivência da democracia que a assegura. Temos assistido a manifestações religiosas que em nome de seu direito à liberdade de expressão e de fé invadem o sagrado espaço de privacidade de grupos e de indivíduos, conclamando a sociedade a verdadeiras cruzadas espirituais contra aquilo que alegam ser uma ameaça à seu direito de fé. Assistimos estarrecidos às pregações de pastores que conclamam o povo de Deus a uma luta contra segmentos sociais considerados perigosos, pecaminosos e pervertidos. O jornal inglês The Guardiam publicou que: “Grupos evangélicos estão tentando realizar uma 'colonização cultural na África', segundo reportagem do jornal britânico The Guardian. Segundo a investigação, diferentes representações religiosas estão abrindo sedes em vários países africanos e implementando uma agenda de valores antigays.” O Instituto de Pesquisa Política (PRA), de Boston, “diz que organizações religiosas norte-americanas vêm ampliando suas operações em todo o continente, fazendo lobby em favor de políticas e leis conservadoras e alimentando a homofobia, com falas agressivas sobre a homossexualidade.”
No Brasil religiosos de denominações diversas e políticos da autodenominada “Bancada Evangélica” desenvolvem ação intensa contra segmentos LGBT, incitando ao ódio e à exclusão, criando na sociedade um processo de estigmatização que vem produzindo violência, crimes de toda sorte e ódios sociais. Tal processo nos faz recordar das ações do nazifascismo na Europa, que aglutinou votos e produziu uma intensa união política nacional ao inventar um inimigo social, público comum: o povo judeu. Sabemos onde isso chegou e como a democracia, que então permitiu tais excessos foi vítima de dessa estratégia.
Em Porto Velho lemos recentemente que segmentos evangélicos estão se reunindo e orientando seus fiéis a não votarem em determinada candidata à prefeitura devido às suas posições em relação a direitos humanos básicos, notadamente na defesa de grupos LGBTs, os mais discriminados atualmente no Brasil. O próprio Rondonotícias publicou matéria a respeito em 25/07-2012: “Guerra eleitoral em Porto Velho entre defensores de direitos humanos e os evangélicos homofóbicos. Pastores da capital de Rondônia têm incentivado os seus rebanhos a não votar na candidata à prefeitura”. Ao mesmo tempo, assistimos estupefatos, durante o evento denominado Marcha para Jesus, à defesa religiosa do político corrupto e foragido da justiça Walter Araújo, expoente político maior dos segmentos evangélicos em Rondônia.
Não observamos na orientação dos púlpitos a defesa da honestidade e da transparência nos procedimentos eleitorais, antes enxergamos a defesa de feudos que representam poder e aglutinação de votos, dinheiro e fiéis dizimistas e doadores. Há em marcha por todo o Brasil e em Rondônia não é diferente, um forte discurso de teocratização da política e isso é uma séria ameaça à democracia e mesmo ao livre exercício da consciência religiosa.
Entre milagres ofertados com hora e local marcado presentes motorizados dados por Deus a seus fiéis, “sonhos que Deus realiza” a partir da submissão acéfala á pregação de lideranças religiosas variadas, observamos o enveredamento por um caminho perigoso e tortuoso: a fanatização religiosa de um povo. Exemplos de onde isso termina historicamente estão à disposição. Atualmente basta observarmos países africanos em lutas fratricidas por questões religiosas ou ditaduras como Irã, Afeganistão e Paquistão.
Uma das mais expressivas belezas do povo brasileiro, em geral, e da sociedade rondoniense, em particular, é o seu caráter tolerante, plural e cosmopolita. Seria uma lástima perdermos nossa espontaneidade, diversidade e multiplicidade cultural em nome de qualquer que seja a denominação religiosa.
Nas eleições precisamos avaliar a ficha limpa de cada candidato, sua proposta de desenvolvimento e inclusão social para o povo, suas metas em relação a direitos humanos, liberdades e respeito a todos. Não é possível que hoje voltemos aos tempos coronelistas dos currais eleitorais da República velha (1889/1930), onde coronéis e padres orientavam o voto do povo. Em muitos casos os expedientes realizados por algumas denominações religiosas tentam impor ao fiel o mesmo principio do voto de cabresto, dessa vez amordaçado pela força do púlpito.
Marco Teixeira
Marco Antônio Domingues Teixeira, ou simplesmente, Marco Teixeira é professor da Universidade Federal de Rondônia, Mestre em História e Doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental. Escreveu “História Regional” e “O Rio e os Tempos”.




